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Artistas e Curador falam sobre as Obras Polêmicas da Exposição da Diversidade do Santander

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Artistas e Curador falam sobre as Obras Polêmicas da Exposição da Diversidade do Santander

Desde o fechamento da exposição Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, o barulho de ambos os lados tornou difícil analisar o ponto central da discussão: o que mostram as obras que causaram controvérsia.

As acusações que resultaram no fim precoce da mostra, que ficou em cartaz até sábado, no Santander Cultural, são basicamente de que obras ali expostas faziam apologia à pedofilia e à zoofilia, além de desrespeitarem símbolos de culto religioso

As denúncias de zoofilia atingem uma obra específica: Cena de Interior II, tela da artista visual carioca Adriana Varejão pintada a óleo em 1994. A denúncia de profanação repousa sobre mais de uma obra – a mais citada, no entanto, principalmente no vídeo que deu início à polêmica, é Cruzando Jesus Cristo com Deusa Schiva, tela de 1996 do porto-alegrense Fernando Baril. Por fim, a acusação de pedofilia atinge a exposição como um todo. No entanto, as obras Travesti da Lambada e Deusa das Águas Adriano Bafônica e Luiz França de She-há, ambas de autoria da cearense Bia Leite, são as mais contestadas.

“Cenas do Interior II”, de Adriana Varejão

Cenas do Interior II mostra cenas de sexo entre duas figuras femininas japonesas, uma figura japonesa e um negro, dois homens brancos e um negro e duas figuras masculinas brancas indistintas com uma cabra – esta última imagem, recortada da obra completa e compartilhada sozinha nas redes, foi a que causou polêmica. Adriana Varejão, responsável pelo trabalho, ressalta que “busca jogar luz sobre coisas que muitas vezes existem escondidas” e que Cenas do Interior II é “uma obra adulta feita para adultos”.

— Esta é uma obra adulta feita para adultos. A pintura é uma compilação de práticas sexuais existentes, algumas históricas (como as chungas, clássicas imagens eróticas da arte popular japonesa) e outras baseadas em narrativas literárias ou coletadas em viagens pelo Brasil. O trabalho não visa julgar essas práticas. Como artista, apenas busco jogar luz sobre coisas que muitas vezes existem escondidas. É um aspecto do meu trabalho, a reflexão adulta — afirma Varejão.

 PORTOALEGRE-RS-BR 14.08.2017Exposição do Santander Cultural chamada Queermuseu ¿ Cartografias da Diferença na Arte Brasileira.Obra de Fernando Baril - 1948 -Cruzando Jesus Cristo Com Deusa Schiva,1996.FOTÓGRAFO: TADEU VILANI AGÊNCIARBS Editoria/Caderno: Segundo Caderno

“Cruzando Jesus Cristo com Deusa Schiva”, de Fernando Baril

A acusação referente a Cruzando Jesus Cristo com Deusa Schiva trata do desrespeito à figura religiosa. Na obra, a figura de Jesus crucificado recebe diversos braços extras, como a deusa hindu Shiva, em que são adicionados elementos referentes à cultura ocidental, à cultura pop e ao consumismo. As denúncias usam como base o artigo 208 do Código Penal,  em que “vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso” é tipificado como crime. Fernando Baril, artista que pintou a obra em 1996, explica suas intenções:

– Aquele quadro tem 21 anos. Era uma semana santa, e eu estava lendo sobre as santas indianas, então resolvi fazer uma cruza entre Jesus Cristo e a deusa Shiva. Deu aquele montaréu de braços carregando só as porcarias que o Ocidente e a Igreja nos oferecem – explica Baril, que desabafa: – Certa vez, Matisse fez uma exposição em Paris e, na mostra, tinha uma pintura de uma mulher completamente verde. Uma dama da sociedade parisiense disse “desculpe, senhor Matisse, mas nunca vi uma mulher verde”, ao que Matisse respondeu que aquilo não era uma mulher verde, mas uma pintura. Aquilo não é Jesus, é uma pintura. É a minha cabeça, ponto. Me sinto bem à vontade para pintar o que quiser.

Exposição estava em cartaz no Santander Cultural

O curador Gaudêncio Fidelis ressalta que a arte ocidental baseia-se muito nos ícones e figuras religiosas e diz ser perigoso o precedente aberto em proibir obras do tipo:

– Grande parte da história da arte ocidental é baseada, depende e foi fundada na iconografia cristã. São obras importantes, como o Cristo Crucificado, de Roberto Cidade, que estava no centro da exposição, que estão em acervos de museus, já estiveram expostas em diversos museus. Agora, em um momento de conservadorismo, alguém decide que eu não posso mais vê-las. É algo estranho.

A acusação mais grave que a exposição recebeu diz respeito à possível apologia à pedofilia: nos vídeos e textos que motivaram o fechamento da exposição, entretanto, há poucas acusações diretas a obras específicas. A mais contundente, no entanto, se refere às obras de Bia Leite. Nas telas, a artista se inspira em publicações do site Criança Viada – em que pessoas enviavam “fotografias antigas enquanto crianças que tinham traços/trejeitos não heteronormativos; com a intenção de celebrar esses traços, que durante toda a infância foram motivo de xingamentos e violência”, segundo Bia.

– Nós, LGBTs, já fomos crianças. Esse assunto incomoda porque nunca viramos LGBTs, nós sempre fomos. Todos devemos cuidar das crianças, e não reprimir a identidade delas ou seu modo de ser no mundo. Isso é muito grave. Sou totalmente contra a pedofilia e o abuso psicológico de crianças. O objetivo do trabalho é justamente o contrário, é que essas crianças tenham suas existências respeitadas – diz a artista.

Iuri Giusti, criador do site Criança Viada, também se manifestou sobre o assunto no Facebook:

“As frases que ilustram as obras da Bia são minhas e me doeu pra c… ver algo que eu escrevi, que foi tão lindamente entendido por anos, acabar sendo colocado como apologia à pedofilia por tanta gente inconsequente e desinformada”.

Gaudêncio reforça o posicionamento e ressalta o viés de combate ao preconceito contra crianças que não seguem os padrões:

– A obra é feita sob uma perspectiva positiva da comunidade LGBT sobre enfrentar o preconceito, o bullying e todas as questões que dizem respeito à manifestação de gênero. Nunca imaginei na minha vida profissional que uma pintura como aquela pudesse ser atribuída ao caráter de incitação à pedofilia. É uma desconexão.

O curador da exposição “Queermuseu — Cartografias da diferença na arte brasileira”, Gaudêncio Fidelis, se diz alarmado após o cancelamento da mostra, no último domingo. O Santander Cultural, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, anunciou o cancelamento da exposição após protestos na instituição e nas redes sociais contra o conteúdo da exibição. Segundo Gaudêncio, foi criada uma narrativa falsa e ficcional sobre a mostra que não corresponde com a realidade.

— Não é uma exposição controversa. A mostra apenas foi “descoberta” pelo Movimento Brasil Livre (MBL), que decidiu fazer uma cruzada contra a exposição com base nos quesitos mais reacionários e moralistas. Em dois dias e meio de constantes ataques, a exibição foi fechada sumariamente, cunhada na decisão do que o MBL e outros grupos de extrema-direita e reacionários que se juntaram a ele decidiram o que pode e não pode ser visto — disse.

As pinturas da exposição mais compartilhadas nas redes mostram a imagem de um Jesus Cristo com vários braços, crianças com as inscrições “Criança viada travesti da lambada” e “Criança viada deusa das águas” estampadas, além do desenho de uma pessoa tendo relação sexual com um animal.

— Eles criaram uma narrativa oral e visual inventada do que é a exposição. É um precedente gravíssimo para o futuro. A pergunta que fica é: o MBL vai fechar outras exposições, decidir que livros a gente pode ler, que música nós vamos ouvir? Eles conseguiram isso com uma rapidez meteórica com críticas à exposição, vídeos editados, avançando para as plataformas do Santander a ponto de derrubar o perfil do Santander com milhares de comentários de pessoas que nunca viram a exposição. É uma censura grave — avaliou.

De acordo com Gaudêncio, a mostra foi aprovada com mérito pelo Santander, que acompanhou todo o processo de montagem e estava ciente do conteúdo. Em nota, o centro cultural afirma ter entendido que as obras expostas “desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a visão de mundo” da empresa.

— A nota do Santander é muito infeliz, em nenhum momento fui chamado para discutir o fechamento da exposição, nada. É muito infeliz como a nota decide e se junta a um coro feito pelo MBL do que deve e não deve ser visto. A exposição teve 26 dias aberta, foi aprovada com mérito pelo Santander dentro de uma política de diversidade que o banco está desenvolvendo para agências de todo mundo e que envolve, inclusive, a política de contratação.

Fonte: Zero Hora / Extra

 

Achei tudo isso apenas mimimi de um povo conservador que quer aparecer na internet e não entende nem um pouco de arte e seus conceitos.

Interpretaram tudo de uma maneira errada em uma visão conservadora. Sem falar que grandes obras já tiveram assuntos polêmicos no passado, mas agora o politicamente correto careta quer padronizar santificando tudo.

A única coisa toda que não curti foi o Banco Santander ter recorrido para Lei Rouanet pra fazer essa exposição. Já falei  várias vezes aqui sobre o erro dessa Lei que deveria ajudar os pequenos artistas, mas acaba ajudando sempre os grandes não agindo com igualdade. Um exemplo mesmo é da Claudia Leitte que parece que já foi até condenada a ter que devolver o que captou com a Lei Rouanet por uso indevido.

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